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Uma Carta Para Zizi Possi

 

Zizi,

Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar.

Essa carta começa bem antes de eu estar aqui sentado diante do computador digitando essas mal traçadas linhas. Essa carta começa quando um menino, em 1978, entrou numa loja e avistou um LP que se chamava “Flor do Mal". Esse garoto, mimado e filho único, fez escândalo na loja e seu pai não teve saída: comprou aquele disco que mudou a minha vida. Dali em diante essa tal “flor” só me fez bem. As letras das canções foram rapidamente decoradas e na vitrola lá de casa só deu você. O tempo foi passando e meu amor por sua música só crescendo. Até que um dia, muitos LP’s mais tarde e muitas emoções vividas em platéias variadas, nos encontramos ao vivo e a cores (ou seria em 3D ?). Foi amor à primeira vista. Uma amizade regada a gargalhadas e muita música boa. Inventamos roteiros para shows que aconteceram e planejamos discos não concretizados. E novamente o tempo passou e nossos dias repletos de Nextel e bombinhas de chocolate começaram a minguar. E foi dentro dessa ausência que surgiu um compositor chamado Guilherme Arantes, uma gravadora chamada Joia Moderna e uma amiga em comum chamada Marina Lima, que desrespeitou nosso silêncio e fez nosso caminho novamente se cruzar na estrada das canções. E agora aqui estou eu sentado novamente numa platéia vendo tua arte florescer, teus admiradores te aplaudirem, tua música sendo assimilada no mais alto grau de entendimento que um ser humano pode conseguir.

Hoje no palco do Sesc Pinheiros te encontrei dona de si, ao chegar em cena invocando Itamar Assumpção e Paulo Leminski com “Filho de Santa Maria”. Te vi soberana misturar com sofisticação as “Palavras” de Gonzaguinha com um dos mais belos sambas do Paulinho da Viola, “Tudo se Transformou”.  Te senti  ainda mais bela e madura  no “Rebento” e na "Paz”, canções de Gil que são, realmente, a mais completa tradução do teu canto. No meio do show, as ingenuidades do pop de hoje, trazidos por uma canção de Luiza Possi (“Cacos de Amor”) e outra de Carlinhos Brown (“Sem Você”),  se misturaram lindamente aos  antigos sucessos  “Caminhos de Sol”, “Asa Morena“ e “Noite”, canções radiofônicas perigosas que o tempo só fez confirmar como obra-prima porque um dia foram cantadas por você. No final do show, Geraldo Vandré é saudado pelo público como um dos mais belos poetas desse país ao som de “Disparada” e “Porta Estandarte” que encerram o show como todo brasileiro merece:  com ufanismo e paixão.

Por tudo isso que eu falei até aqui, poderia ir para a minha casa dormir o sono dos justos, mas tuas mãos de afeto ainda me preparariam mais uma “cilada”. De repente reconheço os acordes de “Meu Mundo e Nada Mais” e confirmo que é tudo verdade: você havia gravado a mais linda canção de Guilherme Arantes. De mãos dadas com Marina Lima, nossa madrinha nessa “idéia”, ali no meio da multidão, ouvindo tua voz cantando aqueles versos, minha vida passou como um filme. O menino que eu fui encontrava enfim o sentido de sua vida.

Enfim Zizi, esse país precisa de você para fazer justiça às mais belas canções. A música brasileira deve muito (tudo) à você. E pelo que vi, nessa noite linda em que as águas de março já preparam o final do verão, você tá só começando.  É o fim da canseira.

Te amo, te aplaudo, te saúdo

Teu fã,

José