

Marchinha de carnaval é coisa do passado. Cibelle, Iara Rennó, Rubinho Jacobina e a banda Do Amor são artistas do futuro. Dessa fusão de intenções, surgiu o Projeto A.B.R.A. (Amigos Bandidos Residentes no Amor Pré Carnaval) que acaba de virar disco e que traz de volta esse estilo musical sem perder a a mínima noção de que estamos em pleno século 21.
A volta dos blocos de rua no Rio de Janeiro trouxe de volta a alegria de se pular carnaval com pouca roupa e muita alegria. Aquele espírito “chuva, suor e cerveja” de Caetano, aquela malícia do biquíni escandaloso de Leila Diniz e o desabrochar de tantos gays enrustidos que só colocavam “o bloco na rua” nos quatro dias de fevereiro, voltaram a habitar as ruas de Ipanema e do Leblon e a ocupar de volta as avenidas Rio Branco e Presidente Vargas. Mas faltava modernizar “A Cabeleira do Zezé”, “A Jardineira” e o cansado “Allah-Lá-Ô”, canções que falavam de antigas polêmicas e problemas sociais já fora de moda. Cadê a liberação da maconha ? Cadê as relações somente baseadas em sexo e amizade ? Cadê as polêmicas que a internet espalha por 15 minutos de fama? Nossos problemas acabaram. Esse bando de malucos contemporâneos criaram delícias tais como “Marcha da Pamonha”, “Marcha do Valeu Otários” e “Marcha do Procure Saber” que contam histórias safadas e hilárias do Brasil de hoje sem perder a levada dos antigos carnavais.
Mas afinal quem são esses ilustres carnavalescos do novo milênio ?
Cibelle é a mais antiga dos novos. Começou sua trajetória musical com o produtor Suba, gravou seu primeiro álbum em 2003 ainda no estilo "busca do som perfeito" e depois de emigrar para Londres gravou seu segundo disco de forma completamente autoral e nunca mais parou de surpreender. Hoje quando você procura por seu nome no Wikipédia aparecem palavras como artista performática multimídia, cantora, compositora e produtora musical e tudo ainda parece pouco para essa mocinha que veio para confundir e não para explicar.
Iara Rennó é filha da cantora e compositora Alzira Espindola e do letrista Carlos Rennó e à partir desse berço esplêndido já fez de tudo: grupos musicais (Dona Zica), carreira solo e um projeto ambicioso e genial chamado “Macunaíma” onde a literatura modernista de Mario de Andrade passou a conviver harmoniosamente com a música. De mudança (provisória com cara de permanente) para o Rio de Janeiro, foi ali no bairro de Santa Teresa que as primeiras idéias do A.B.R.A começaram a florescer.
Rubinho Jacobina é um dos melhores compositores de sua geração. Irônico, malicioso e cronista social, Rubinho é uma mistura de Noel Rosa com Jorge Mautner. Seu primeiro disco nunca parou de tocar aqui em casa e cantoras como Silvia Machete, Nina Becker e Roberta Sá estão sempre de olho em suas canções.
A banda Do Amor tem entre seus integrantes Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes, aqueles dois caras que, junto com Pedro Sá, revolucionaram a obra de Caetano Veloso nos álbuns “CÊ” e “Zii e Zie”. Mentes arejadas, levadas ensolaradas, fazem dessa banda uma das minhas preferidas.
Bom, depois de tudo que eu disse até aqui, aposto que você já pegou seu colar de flores de plástico, colocou seu short mais curto, calçou suas havaianas e se mandou atrás do primeiro bloco que passou. A.B.R.A. suas asas, solte suas feras e caia na gandaia.

Antes da ditadura Fashion Week existir e mil anos luz de eu me sentir capaz de produzir uma trilha sonora para um desfile, já existia no Brasil uma mulher cruel e apaixonante chamada Regina Guerreiro. Quando por aqui pouco se falava de tendências e estilos e as poucas revistas ligadas a esse tema tinham vendas inexpressivas, Regina já dava as cartas, elegendo modelos, apontando novos fotógrafos e, claro, detonando gente sem talento e carisma. Agora,antes tarde do que nunca, é lançada sua biografia chamada “Ui !” que é um verdadeiro mosaico verbal e visual da carreira dessa sacerdotisa da moda.
Quando cheguei mais perto desse universo fashion complexo e desafiador, Regina Guerreiro era um nome constantemente citado, sendo assim, fui em busca de mais informações desse ser polêmico, que causava tantas reações de amor e ódio. Alguns me alertaram a manter uma distância essencial, outros comentavam que eu seria imediatamente fulminado pelo seu charme e “mise em scène”. Enfim pelo que entendi, conviver com Regina Guerreiro, seria como estar no primeiro banco de uma montanha russa em completo desgoverno : a adrenalina causava dependência imediata. Não resisti, cheguei mais perto, e a paixão foi imediata, uma admiração que me faz agora, tantos anos depois do nosso primeiro encontro, escrever um texto totalmente dedicado a essa “enfant terrible” (enquanto escrevo essa famosa expressão francesa, procuro por seu significado e não tenho dúvidas ao usá-la para definir Regina):
Enfant Terrible - termo francês para designar uma criança que é muito inocente ao ponto de dizer coisas embaraçosas aos adultos. Uma pessoa que geralmente tem sucesso e que é fortemente não ortodoxo, inovador ou de vanguarda.
Regina Guerreiro é essa criança que entra de repente na sala sem ser convidada e diz verdades absolutas. Uma mulher de sucesso que inaugurou propostas, confirmou grandes idéias, adotou artistas natos e jogou fora o que considerou empecilho para o crescimento da moda no Brasil. Além de comandar editoriais para revistas e abusar do impulso criativo em desfiles, Regina Guerreiro sempre escreveu muito bem. Seu texto supostamente fútil e debochado, esconde verdades irrefutáveis . Ao vivo, se revela ainda melhor: de sua boca vermelha , saem farpas e doçuras que se cruzam num discurso cheio de sutilezas e descaramentos.
Este seu livro “Ui !” é um retrato fiel (se é que isso é possível quando se trata de Regina) de todas as suas extravagâncias e essencialidades. Prefácios deliciosos de amigos de longa data como o jornalista Mario Mendes e de sua “quase” funcionária Costanza Pascolato, além de um farto material fotográfico , confirmam a grandeza dessa profissional e fazem desse “objeto de arte” um motivo de consumo imediato. Um livro necessário para se entender uma mulher que nunca teve medo de dizer sim ou não a quem quer que fosse, que fez história fazendo a história da moda brasileira não ter vergonha de sua própria identidade, um mito fundamental feito de coragem e grandeza.
Procure por Regina Guerreiro nas melhores livrarias. Essa verdadeira mãe coragem do mundo fashion brasileiro ainda tem muito o que dizer.

E se Lô Borges marcasse um encontro com Hyldon numa esquina do Brasil, o que aconteceria ? Com certeza, nasceriam canções como as de Qinho nesse seu segundo disco solo chamado “O Tempo Soa”. Harmonias quase mineiras em letras supostamente cariocas deságuam num álbum de sotaque universal.
Qinho já anda pelo meu território há algum tempo. Num encontro modernista entre Luiz Melodia , Adriana Calcanhotto e Jards Macalé para celebrar a obra de Waly Salomão, eu avistei pela primeira esse garoto que tinha uma banda de nome no mínimo curioso: Vulgo Qinho & os Cara. Junto com Omar Salomão, que despejava poemas de seu pai sobre guitarras alucinadas e um cover de Nelson Cavaquinho (“Juízo Final”), Qinho desfilava composições próprias com um timbre vocal muito particular. Na saída, fui dar parabéns meio envergonhado diante de sua beleza e carisma, com medo de parecer mais um gay na multidão querendo puxar assunto, complicação que sempre me acontece quando o assunto é cantor. Mas nossa aproximação foi inevitável. Logo em seguida começamos a nos encontrar no Baixo Leblon sempre rodeados de amigos comuns que nos aproximaram ainda mais. Seu primeiro disco “Canduras” de 2009, intimista e já recheado de boas canções, foi entregue em boas mãos que o tornaram assunto “cult” nas altas rodas. Além disso, a revista TPM largou na frente expondo sua nudez de gato para leitoras que não resistiram ao encanto e correram para sua música rapidamente.
No ano passado, quando Jussara Silveira fez seu disco “Ame ou Se Mande” na Joia Moderna, ela me falou da possibilidade de colocar uma canção “extra” de Qinho no repertório e não deu outra, "Bom" musica dele com André Carvalho, virou faixa favorita aqui em casa . Além disso, enquanto produzia “O Tempo Soa”, Qinho me falava de suas idéias: uma música rara de Gonzaguinha com participação de Elba Ramalho ("Morena"), uma participação de Mart’nália ("Segredinho"), e a companheira de geração Amora Pêra ("Irmã Forte") , que prepararam minhas expectativas que se encontram saciadas agora quando ouço o disco por inteiro. “O Tempo Soa” é bom demais. Canções que lembram um tempo feliz onde a Banda Black Rio, Caetano Veloso, Moraes Moreira e (por que não ?) o grupo Roupa Nova eram os donos do verão e a turma se encontrava no Arpoador para andar de patins.
Qinho é menino esperto. Bem mais que um garoto do Rio, ele tem ambições musicais sofisticadas, uma voz rara e cara de muso , ingredientes importantes na construção de um cantor. Agora é questão de tempo.

Nara Leão, 70 anos. Infelizmente essa verdade é dita sem sua presença aqui na Terra, mas...sempre a musica operando milagres: seus discos permanecem, sua voz ainda é sinônimo de inteligência e extrema coerência.
Nara era uma mulher elegante. Suas opiniões sempre foram manifestadas de forma minimalista. Longe de fofocas e das famosas falcatruas comerciais das gravadoras quando o assunto é fabricação de estrelas, Nara usou o sim e o não quando bem quis. Afirmou o samba de morro antes da hora, negou a bossa nova quando todos consagravam, lembrou de canções infantis quando ser criança era proibido e cantou Roberto e Erasmo bem antes disso ser unanimidade. Nara era a anti-musa de todos os ritmos.
Quando milhões de pessoas lutavam contra as guitarras elétricas pelas ruas de São Paulo, Nara assistia a tudo pela janela com seu jeito sábio de fugir dos efeitos imediatos. Quando quiseram criar rivalidades com Elis Regina se manifestou com atitudes, buscando distância da polêmica Pimentinha. Sim , Nara aparece na capa do disco que inaugura o Tropicalismo, mas logo em seguida traçou tantas novas rotas, que seu nome hoje em dia é lembrado dentro do movimento apenas como uma simpatizante. Não adianta. Nara era livre.
Nara vem de uma linhagem nobre : sua irmã Danuza é grande pensadora do cotidiano humano, sua filha Isabel Diegues uma consistente cineasta e produtora , sua sobrinha Pinky Wainer, uma sensível marchand das artes e mais na frente aparece sua sobrinha neta Rita Wainer construindo um caminho significativo na moda e nas artes plásticas. Mulheres contemporâneas decididas a colaborar com as mudanças do mundo, a fazerem história.
Nara Leão tem uma discografia vasta e pertinente. Deveria servir como apostila de iniciação para esse número exorbitante de novas cantoras que esse país tem. Uma intérprete segura de suas idéias, descobridora de novos compositores e acima de tudo preocupada em fazer música para eternidade. Suas músicas quando tocam hoje em alguma rádio (caso raro, uma vergonha) soam completamente atuais e sedutoras: melodias imortais, letras que ainda queremos ouvir e uma voz de pequena extensão e grande intenção.
Por isso nesse dia repleto de Elis e muita saudade, é sempre bom lembrar que Nara Leão faria 70 anos e TAMBÉM foi a maior cantora desse país, com tudo que isso quer dizer em talento, verdade e paixão

19 de Janeiro de 1982. 30 anos sem Elis. Qual tamanho dessa ausência dentro da música brasileira ?
Elis Regina ganhou o posto de maior cantora do Brasil nos anos 60. Enfrentando festivais e programas de televisão, ela virou a porta-voz dos brasileiros naquele momento. Dona de um a voz dotada de extrema afinação e uma personalidade em estado bruto onde seus sentimentos e opiniões não eram filtrados pelo bom senso, Elis era um ser humano complexo e ao mesmo tempo repleto de ambições simples como ser mulher de um homem só, ter filhos e cuidar do lar. E tudo isso ela conseguiu.
Elis mudava de opinião muito rápido. Sua fúria poderia se tornar um afago e seu amor se transformar no mais amargo dos sabores. Num dia poderia contestar guitarras e tropicalismos e no ano seguinte gravar Caetano e Roberto Carlos. Mas o seu talento para operar essas mudanças era tamanho que o desejo era sempre de celebrar essas transformações porque o desejo de ouvir sua voz em qualquer canção que fosse, era maior que a vontade de atacar seus discursos precipitados. Tudo isso eu falo como admirador incontestável porque de críticos impiedosos e patrulhamento Elis sempre foi a maior vítima. Quase todos cantaram para os militares mas no fim das contas, sobrou pra ela. Muitos foram contra a Jovem Guarda, mas suas aspas viraram a pedra fundamental desse motim. Tudo isso porque ela era a maior cantora do Brasil.
Muito se fala de Elis Regina nos dias de hoje. Frases de efeito, as mesmas músicas citadas nas listas de sempre, um festival de chavões que, com certeza, ela estaria dinamitando em jornais e revistas se estivesse viva. Mas principalmente o que nós, seus ouvintes freqüentes, nos perguntamos há 30 anos é o seguinte: como seria a música brasileira de hoje se Elis Regina tivesse permanecido combatente nas rádios e discos desse país ? Que compositores teria revelado? O Brasil teria calçado as chinelas do popular e feito esse liquidificador de doido que virou a MPB ? É só o que queremos saber.
No dia 19 de Janeiro de 1982, a música de Elis Regina estava em fase de transição. Seu casamento musical e pessoal com César Camargo Mariano chegava ao fim e seu último álbum gravado em 1980 foi recebido de forma blasé pelo público e crítica. Além disso, duas grandes multinacionais disputavam os direitos de um próximo disco seu , visto que ela assinava contratos que nem sempre coincidiam com os seus desejos de artista , causando litígios e muito bate-boca. Como um último registro, ela deixou a versão de Paulo Coelho para um bolero de Armando Manzanero chamado “Me Deixas Louca” que anunciava o primeiro disco pela gravadora Som Livre, que infelizmente não aconteceu. Todos esses fatos viraram poeira quando sua morte foi anunciada, Elis Regina era a maior cantora do Brasil e ponto final. Mas hoje em dia se tornam assuntos pertinentes para se tentar decifrar quais seriam os rumos que Elis Regina iria tomar dentro da música brasileira nas décadas seguintes.
Durante os terríveis anos 80, teria ela gravado os compositores Michael Sullivan e Paulo Massadas ? Teria feito aparições no Cassino do Chacrinha entre bolas de gás e jurados histriônicos ? Nos anos 90 teria abençoado o axé e seus derivados ? Gravaria um Acústico MTV cheio de sucessos previsíveis e pobres inéditas ? Na virada da década escolheria o caminho dos independentes ou ainda estaria sob o jugo falido das grandes gravadoras ? 30 anos depois são essas as minhas perguntas.
Nesse ano de 2012, além de todos esses meus pensamentos , sairá do meu bolso muito dinheiro para as caixas de discos que trarão sua obra completa, outra versão da única biografia existente chamada “Furacão Elis”, a reedição de sua apresentação em Montreux (que em vida ela não autorizou), e uma turnê pelo Brasil com Maria Rita cantando as canções da mãe , que já virou bolão de apostas aqui em casa para tentar adivinhar quais serão essas músicas. Tudo isso porque Elis Regina é a maior cantora do Brasil. 30 anos depois. Sempre será.

Roberta Sá está de volta ao universo musical que melhor domina e que sempre me conquista de imediato: a música pop regional brasileira. Praticamente uma sócia fundadora desse estilo (hoje bastante praticado por novas cantoras), Roberta sabe pescar canções preciosas no lago das inéditas e resgatar pérolas escondidas nas grutas da MPB, fazendo um repertório sempre coerente, surpreendente e consistente.
Confesso que não ouço Roberta desde 2009. Me abstive de seu disco focado na obra de Roque Ferreira, alegando excesso de regionalismo que logo me cansou nas duas primeiras faixas, deixando meu interesse em descanso à espera de seu próximo trabalho que segundo ela própria, não demoraria a acontecer. Dois anos depois, promessa cumprida: “Segunda Pele” já virou vício no meu Ipod, que nessa semana irá descansar daquele eterno “shuffle” esquizofrênico. Meus ouvidos só querem ouvir “Lua”, “Pavilhão de Espelhos” e “No Bolso”. Minha mente se alimenta de letras deliciosas escritas por Rubinho Jacobina (“Bem A Sós”), Lula e Yuri Queiroga (“Altos e Baixos”), Moreno Veloso, Quito Ribeiro e Domenico Lancelotti (“Brincadeira”). Meu coração planeja novos amores com “Segunda Pele”(canção título do CD escrita por Carlos Rennó e Gustavo Ruiz) e “Você Não Poderia Surgir Agora” de Dudu Falcão.
Roberta Sá não inventa moda. Gosta da música brasileira e suas variantes de forma espontânea e sem forçar conceitos , preocupando-se apenas em selecionar boas canções, adequá-las ao seu registro vocal, eleger músicos que norteiem essas melodias pelos melhores caminhos e criando uma imagem que acompanhe todo esse processo. Mistura tudo em doses exatas e revela-se uma cantora que, em dez anos de carreira, construiu um caminho perfeito no que se propõe.
“Segunda Pele” não é divisor de águas, é prosseguimento. Não desfruta de inquietações e estranhezas, é romântico, brasileiro e universal. Patrocinada pela empresa Natura, Roberta deixa transparecer melhor suas ambições musicais, abusando de grandiosos naipes de metais em arranjos nada modestos, no melhor sentido.
Esse texto é apenas um convite para você procurar pelo novo disco de Roberta Sá nas lojas. Muito dele ainda será revelado a mim. Sutilezas irão transparecer quando eu estiver bem mais além dessas sete vezes em que já ouvi o álbum por inteiro. Frases entrarão no Twitter, canções serão postadas no Youtube, amigos irão compartilhar no Facebook, como uma segunda pele, um calo, uma casca, uma cápsula protetora. Roberta Sá vale a pena.

Ontem fui assistir “Hair”. Não, esse texto aqui não foi escrito em 1968 e nem eu estou em Nova York. O espetáculo emblemático que mudou as idéias do mundo sobre amor e paz, está de volta aqui mesmo em São Paulo no Teatro Frei Caneca com um elenco que nem de perto, por motivos óbvios de idade, esteve naquele momento no planeta Terra, mas que com certeza, graças aos mestres dos musicais no Brasil Claudio Botelho e Charles Möeller, nasceram predestinados a nos fazer voltar no tempo e rever os nossos valores humanos hoje já tão esquecidos.
A historia do “Hair” é uma velha conhecida aqui de casa. Estive numa sala de cinema quando o filme de Milos Forman estreou no Brasil em 1979. Com filas intermináveis e milhões de discos vendidos, essa versão cinematográfica da história original, apaixonou multidões. Mas origem vem de muito antes, dos tempos revolucionários de 1967, quando dois escritores chamados James Rado e Gerome Ragni criaram essa história centrada no movimento hippie que nascia ali e deixou esses dois caras completamente extasiados e curiosos com aquele discurso que pregava liberdade de sentimentos e vontade de contestar as normas pré-estabelecidas. Tendo suas primeiras apresentações num pequeno teatro Off-Broadway e logo em seguida numa discoteca no centro de Manhattan em Nova York, rapidamente o espetáculo ganhou o mundo e chegou ao Brasil em 1969 pegando todos de surpresa com sua temática libertária em plena ditadura militar e sua tão proclamada cena de nudez que encerra o primeiro ato, onde todos os atores mostram sua completa desinibição em frente a uma platéia, que nesse instante, já esta totalmente contaminada por aquela historia e delira em aplausos frenéticos.
Muita gente boa começou sua carreira na primeira montagem brasileira de “Hair” em 1969 aqui em São Paulo: Sonia Braga, Aracy Balabanian, Antonio Fagundes, Ney Latorraca entre outros. O espetáculo foi um sucesso avassalador e gerou um disco com as versões em português, hoje disputado em sebos a preços exorbitantes. E foi com a cabeça cheia dessas informações e com um amigo que esteve presente na platéia dessa primeira montagem, que eu cheguei ao Teatro Frei Caneca nitidamente desconfiado do que eu encontraria ali no palco e ao mesmo tempo com muita vontade de me emocionar. E que se revelou foi uma catarse totalmente idêntica ao que se viu nas montagens anteriores: o público invade o palco e celebra junto com o elenco, cantando e dançando em busca do tempo perdido.
Os personagens da história são encarnados por jovens atores tomados pela vitalidade do texto e da encenação (muitos deles trêmulos e com os olhos cheios d’água em algumas cenas) de forma tão arrebatadora que se tornou um sucesso imediato na primeira temporada que aconteceu no Rio de Janeiro . Tudo é motivo de empolgação na platéia: as canções muito bem traduzidas, arranjos executados por uma banda de rock afiada e um cenário que nos transporta para aquele antigo desejo de ser feliz sem guerras, de viver num mundo cheio de amor para dar, anseios de toda uma geração que, se naufragou em suas intenções, pelo menos lutou até o fim por seus ideais.
Não espere a lua chegar na sétima casa e Júpiter alinhar-se com Marte. Vá até o Teatro Frei Caneca assistir “Hair”. O sonho ainda não acabou. Let the sunshine in.

1) No Norte da Saudade - Gilberto Gil
2) Caminhos de Sol - Zizi Possi
3) Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda - Hyldon
4) As Curvas da Estrada de Santos - Roberto Carlos
5) Estrada do Sol - Gal Costa
6) Nú Com a Minha Música - Caetano Veloso
7) Notícias do Brasil - Milton Nascimento
8) Coisas da Vida - Rita Lee
9) Trem Azul - Elis Regina
10) Canção de Verão - Roupa Nova
11) Bye, Bye, Brasil - Chico Buarque
12) Tarde em Itapuã - Maria Bethânia
13) Do Leme ao Pontal - Tim Maia
14) Descobridor dos Sete Mares - Lulu Santos
15) Terral - Ednardo
16) Maracangalha - Dorival Caymmi
17) Rio de Janeiro - Ney Matogrosso
18) Isto Aqui O Que é ? - Caetano Veloso
19) O Rei do Salão - Kid Abelha
20) Aquele Abraço - Gilberto Gil
21) Deu Pra Ti - Kleiton & Kledir
22) Céu de Brasilia - Toninho Horta
23) Pelados em Santos - Mamonas Assasinas
24) Para Um Amor No Recife - Marina Lima
25) Peguei Um Ita No Norte - Fafá de Belém
26) Piquenique em Paquetá - Joyce & Ana Martins
27) Telegrama - Wanderléa
28) Descer a Serra - Guilherme Arantes
29) Lá em Mauá - Renato Terra
29) Flor do Cerrado - Gal Costa
30) Ponta do Seixas - Cátia de França
31) Lumiar - Beto Guedes
32) Alto Astral - A Cor do Som
33) De Repente Califórnia - Lulu Santos
34) A Dois Passos do Paraíso - Fernanda Abreu
35) Itapuana - Arnaldo Antunes
36) Porto Alegre - Adriana Calcanhotto
37) Nossa Bagdá - Péricles Cavalcanti
38) Ipanema - Dulce Quental
39) Solidão Que Nada - Cazuza
40) Tapete Mágico - Gal Costa
41) Virou canção - Fernanda Porto
42) Naturalmente - Fafá de Belém
43) Aquarela Brasileira - Martinho da Vila
44) Querelas do Brasil - Elis Regina
45) Onde Ir - Vanessa da Mata
46) Candeias - Edu Lobo
47) Alteza - Maria Bethânia
48) A Tonga da Mironga do Kabuletê - Daniela Mercury
49) Aqui e Agora - Gilberto Gil
50) Na Baixa do Sapateiro - Caetano Veloso

Bem longe dos olhares críticos e bem próximo ao meu coração, aqui estão os dez discos que fizeram a festa e a delícia aqui em casa. Não teve um dia sequer que essas canções não tenham passado pelo meu Ipod. Além disso, não dei sossego aos meus amigos, ordenando compra imediata desses álbuns com direito à telefonemas de confirmação. Então, vamos a eles em ordem alfabética e nunca pela escala de maior ou menor importância.
1) A Dama Indigna – Cida Moreira
Cida Moreira abriu os trabalhos de 2011 com este disco que é a síntese mais absoluta e necessária de sua obra. De frente para o seu inseparável piano, ela cometeu as mais belas canções que se possa merecer nesse mundo , envolvendo Tom Waits , David Bowie , Chico Buarque, Caetano Veloso e a todos nós com sua fúria musical autoral.
2) Ame ou Se Mande – Jussara Silveira
Cantora sempre esquecida nas grandes listas, Jussara Silveira, aqui em casa, sempre foi prioridade. Uma voz que tem inteligência na hora das escolhas e uma sensibilidade que arrasta admiradores há mais de vinte anos. Ao lado dos “monstros sagrados” Marcelo Costa e Sacha Amback, Jussara nesse disco atravessa um repertório que confirma que o Brasil precisa mais de intérpretes como ela do que compositoras sofríveis de olho nos direitos autorais e no seu próprio umbigo.
3) Cavaleiro Selvagem Aqui Te Sigo – Mariana Aydar
Inesperado, potente e corajoso. Mariana Aydar poderia ter escolhido os mais fáceis e comerciais caminhos para o seu canto mas preferiu a difícil tarefa de fazer música de qualidade nesse país das grandes bobagens. Um disco inquieto, estranho e original.
4) Diurno – Ava Rocha
Trazendo consigo a forte herança de seu pai Glauber, Ava Rocha não veio ao mundo para explicar e sim para confundir, no melhor sentido. Com uma voz rascante que mistura Marianne Faithfull e Marilia Medalha em sua garganta, Ava não quer o posto de mais uma cantora/diva no Brasil, quer assinar canções que façam diferença e reinterpretar velhos compositores com segurança e originalidade. Um disco irregular, imperfeito e genial.
5) Fôlego – Filipe Catto
Na primeira vez que ouvi Filipe Catto, imediatamente pressenti ali uma voz masculina que faria diferença no país das cantoras. E pouco mais de um ano depois seu disco chegou aqui em casa e arrebatou a calma do meu lar. Intérprete dramático e sem medo dos excessos, Filipe, além de fazer ótimas escolhas quando o assunto é regravar outros compositores, ainda escreveu uma das melhores canções do ano, a muito romântica “Adoração”.
6) Literalmente Loucas – Marina Lima
E se doze mulheres da nova geração pegassem algumas canções obscuras de Marina Lima e cometessem a ousadia de, praticamente, assinarem novas parcerias com essa musa do pop brasileiro ? Um dia acordei com essa pergunta e dei asas a minha imaginação convidando a jornalista Patricia Palumbo para, junto comigo, escolher essas novíssimas cantoras que fariam parte do projeto. E o resultado foi o melhor possível. Convidadas no sentido amplo, geral e irrestrito a gravarem as faixas de forma autoral, elas entenderem perfeitamente a cantada e fizeram desse disco um painel completo das novas inquietudes da música brasileira.
7) Longe de Onde – Karina Buhr
Não é o melhor disco de 2011. É a maior surpresa que me aconteceu em 2011. Já sabendo de sua existência e ao mesmo tempo mantendo uma insistente e descuidada distância dessa força da natureza, um dia peguei minhas pernas e fui ao Studio SP assistir Karina Buhr. E nunca mais fui o mesmo. Diante de um furacão de intenções visuais e musicais, me vi arrastado por uma multidão já íntima e discípula dessa mulher nova, guerreira e furiosa. Este seu segundo álbum confirma tudo o que eu disse aqui e vai além. Karina Buhr é a coragem que a música brasileira estava precisando.
8) Memórias Luso/Africanas – Gui Amabis
Álbum com começo, meio e fim, remetendo a um bem costurado roteiro cinematográfico. As participações especiais de Céu, Criolo e Tulipa Ruiz contribuem para o clima denso e visual das letras que fazem um histórico pessoal (e talvez de todos nós), das raízes da música brasileira. Um disco inspirado e emocionante.
9) Recanto – Gal Costa
Muito já se falou, portanto tudo já se sabe: Gal Costa fez o disco que ninguém esperava e portanto já vale como indicação em todas listas. Preguiçosa e previsível em seus últimos trabalhos, ela foi arrastada por Caetano Veloso para perto das modernidades e inquietações. E se deu bem. E todos nós agradecemos. Gal Costa está de volta ao lugar de merecimento dentro da música brasileira.
10) Sou Suspeita, Estou Sujeita e Não Sou Santa – Anelis Assumpção
Anelis é a flor que seu pai Itamar plantou na canção brasileira e que, finalmente em 2011, deu seu primeiro fruto completamente autoral. Disco cheio de coragens, assuntos e pertinências , foi planejado por Anelis sem a pressa dos grandes mercados e com a força da paixão de quem sabe muito bem o que quer. Além disso, gerou um show inesquecível para quem viu e que eu espero ver muito ainda em 2012. Salve o clã dos Assumpção !

E finalmente me debrucei sobre “A Curva da Cintura" de Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra e Toumani Diabaté nos 45 minutos do segundo tempo desse ano que já se vai e pude ouvir um dos grandes discos lançados em 2011 que, com certeza, será melhor digerido ao longo de 2012 porque não merece audições precipitadas pré-natalinas. É um álbum para se mastigar e fazer longa digestão.
Quanto mais compositores sofríveis insistem em habitar o nosso território de lindas e importantes canções, mais Arnaldo Antunes confirma sua habilidade para fazer discos e projetos aos borbotões sem nunca perder a qualidade, inquietude e inteligência. Geralmente um álbum aqui em casa passa por uma triagem para cair no meu Ipod com, já pra lá, de 8 mil músicas, mas confesso que está difícil fazer qualquer exclusão dessa “Curva da Cintura”. Já estou na faixa 17, portanto perdi as esperanças.
Admito não ser um ouvinte assíduo dos sons que vem da África, tampouco me arrisco a me autodenominar um profundo conhecedor desse gênero musical para poder descrever aqui o trabalho desse músico (premiado com Grammy e consagrado em sua terra natal) chamado Toumani Diabaté. Em contrapartida, Arnaldo e Scandurra são velhos conhecidos aqui de casa, começando pelos meus tempos de estudante ainda nos anos oitenta e atravessando minha vida e a de muitas gerações até aqui, em pleno século 21. São muitas canções vindas desses dois gênios. São muitos aplausos vindos de mim em diversas platéias.
Arnaldo acabou de cometer dois petardos certeiros: o álbum de estúdio renovador “Iê Iê iê” e depois o DVD “Ao Vivo Lá Em Casa” que pegou seus vizinhos de surpresa e seduziu, completamente, uma platéia alojada no quintal da sua residência. Então eu pensei: depois de tanta grandeza Arnaldo vai entrar em longas férias. Engano total. Arnaldo durante essa longa turnê concebeu esse disco que falo aqui e recentemente gravou seu projeto “Acústico MTV” que irá inaugurar seus trabalhos para 2012 e que eu garanto, porque estava lá, trará mais benefícios musicais para a humanidade.
“A Curva da Cintura” é um disco sereno, de poucos instrumentos e poesia afiada. Mesmo quando Arnaldo traduz, para a nossa língua portuguesa, uma canção de Serge Gainsbourg (“Meu Cabelo”), ele confirma sua excelência com as palavras, sua realeza dentro da música pop brasileira. Edgard Scandurra nos dá a certeza de ser um músico primordial nas faixas instrumentais que encerram o disco em forma de bônus tracks (“Neblina de Areia” e “Bamako’s Blues”) além de, durante todo o álbum, mostrar uma afinidade siamesa melódica com as letras bem construídas de Arnaldo.
Enquanto escrevo, enquanto ouço, já consigo eleger as minhas preferidas: “Cê Não Vai Me Acompanhar”, “Que Me Continua” e a faixa título “A Curva da Cintura”. Mas estou só começando. Daqui a pouco saberei de cor todas as faixas e estarei nas filas mais próximas do palco cantando todas. Porque eu sou fã, porque eu sou groupie de Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra e (nossa, mais um !) Toumani Diabaté.
“A Curva da Cintura” mistura a refavela de Gil, o passo firme de Nina Simone e a ingênua Jovem Guarda, todos desaguando no coração da África, a mãe de todos nós. Já nasce álbum referência. Procure por ele.
