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Alegria Que Declara a Revolução

Eu estava lá em 1992 quando Daniela Mercury mudou o canto das cidades. Garoto que transitava entre a MPB tradicional e o rock inglês, vocês podem imaginar o tamanho da minha revolta quando aquele som percussivo feito de letras ingênuas invadiu as rádios e vitrolas do Brasil. Ainda por cima, ao me recusar a tocar “Suingue da Cor”, perdi meu primeiro emprego de DJ. Vinte e um anos depois, me encontrei sentado no Sesc Pinheiros para assistir a estreia de “Pelada”, o novo show de Daniela, onde agora atabaques mais suaves e levadas românticas são o retrato de seu repertório. Foi ali que me perdi em divagações que vou tentar descrever aqui nesse texto.

Coragem e loucura. Um verdadeiro artista, na minha opinião, deve transitar entre esses dois assuntos e ao ver Daniela entrar no palco ontem literalmente seminua diante de um público que esgotou  os ingressos para os quatro dias em apenas quatro horas cantando um repertório completamente autoral e estranho aos seus súditos acostumados a micaretas e muito suor, imediatamente me peguei aplaudindo com muita intensidade essa mulher que, ao declarar-se perdidamente apaixonada por alguém do mesmo sexo, pegou seus ouvintes e desafetos completamente desprevenidos, tornando-se novamente assunto de todos os jornais do Brasil. Naquele momento eu só pensava numa coisa: musicalmente, no meio desse furacão de boatos e confirmações sobre sua vida pessoal, como irá se comportar Daniela em seu próximo disco/show ? “Pelada” não responde a essa minha pergunta de forma clara porque mistura palavras e canções de uma forma tão pessoal e intransferível que parece não existir um roteiro definido, apenas a vontade urgente de uma artista de se expor completamente aos olhos do público. Em cena, Daniela chora, repreende um espectador desatento, provoca a multidão nas cadeiras com perguntas tais como “tem algum neurótico na platéia ?”, desfia suas indignações contra a politicagem brasileira e...canta. Canta lindo. Se algumas músicas são feitas de uma verborragia desnecessária outras como “Aeromoça” e “Cinco Meninos” provocam muitos aplausos e emoção. Em momento algum parecendo estar perdida no palco entre tantas divagações e propostas musicais, Daniela nitidamente não pede licença. Simplesmente faz o que quer. Dentro desse tema, abro aqui um espaço para outro pensamento que me assaltou durante o espetáculo

Ao contrario do procedimento que virou vício na carreira dos cantores populares no Brasil, Daniela não vampiriza as celebridades musicais do momento. Não faz fotos abraçada em Anittas, Naldos e tantos outros eternizados em 15 minutos nesse país do efêmero. Artista inquieta, ao gravar um DVD ou lançar um disco, Daniela sempre procura seus próprios caminhos que poderão dar em tudo ou nada mas, com certeza, sempre serão seus. Ao longo desses anos, ela se misturou com música eletrônica em pleno carnaval da Bahia, abraçou o pop quando todos copiavam sua axé music e fez canção de protesto quando todos descartavam pensar. Corajosa e louca. Como todo o artista deve ser.

“Pelada”, o show, vem para confundir e nunca para explicar. É um show urgente e em technicolor, como diria Clarice Lispector, onde Daniela Mercury expõe sua vida e sua arte em carne, osso e coração. Uma baiana arretada. 




De Repentemente, Atenção !

O segundo álbum de Jorge Ailton era esperado aqui em casa com a mesma ansiedade que costumo ter quando um gigante da música popular está para lançar novo trabalho. Sim, porque seu primeiro disco “O Ano 1” causou o impacto dos grandes aqui em casa e virou presente e indicação de som  para muitos dos meus amigos. Usando a linguagem das ruas, o cara é fera. Sua chegada ao mercado foi de tamanha relevância que Paula Toller inaugurou um selo para lançar seu primeiro álbum e Lulu Santos, visionário e certeiro,  regravou a canção “Atropelada”. Agora este “Canções em Ritmo Jovem” (título que poderia perfeitamente figurar na capa de um antigo LP da Jovem Guarda), chega às lojas confirmando todos esses poderes e tornando-se uma espécie de segunda chamada para ouvintes que, por descuido, insistam em ficar desatentos.

Jorge Ailton concebeu um disco irresistível e implacável. Cheio de melodias que não dão mole para obviedades e outras vagabundagens, Jorge Ailton se mostra um arquiteto de canções geniais. Além disso, seus novos (Kassin e Ronaldo Bastos) e antigos (Alexandre Vaz) parceiros se mostram cheios de paixão e fé montando com ele esse verdadeiro quebra cabeça harmônico e poético. Enquanto ouço o disco com atenção, eis que de repente surge  a sua versão (na minha opinião, já antológica) de “Criança” de Marina Lima, trazendo nova densidade aos versos e demostrando que, ao escolher canções alheias, também é um excelente discípulo dos mestres do pop brasileiro.

Se “O Ano 1” puxava mais para o funk e o soul, este “Canções em Ritmo Jovem” parte para o rock sem firulas. A presença de Lulu em “Chega de Longe” e a pesadona “Charme Nenhum” confirmam esse meu pensamento mesmo que “Amanhecer” me traga de volta a melancolia de Cassiano e “O Pequeno Rei” lembre alguma antiga balada de Tim Maia, dois nomes que cito apenas como referências distantes porque em momento algum Jorge Ailton mergulha profundamente no mar de suas influências, procurando sempre a terra firme de um trabalho autoral.

Agora volto para “Canções em Ritmo Jovem”, álbum da semana no meu Ipod, com a certeza de que deixei bem claro nesse texto o que vou dizer a seguir: Jorge Ailton veio para ficar. Agora só falta você saber. 

 




Puro Teatro

Sim, eu fui dos primeiros a conhecer a voz de Filipe Catto. Numa dessas surpresas que a internet costuma nos pregar, Filipe surgiu na tela do meu computador em tempo real fazendo uma apresentação em 2010 e de cara me impressionei com tamanha segurança ao atravessar caminhos tão diversos como uma canção de Marianne Faithfull ou um bolero rasgado de Ataulfo Alves. E foi assim, no auge da minha tietagem, que nos encontramos pessoalmente. Ele seguro de si e eu em estado de transtorno progressivo, querendo leva-lo imediatamente para um estúdio de gravação mais próximo. E tanta coisa aconteceu com sua música depois disso, tantos acertos, tantos passos em falso que quase confundiram meu coração de ouvinte apaixonado. E foi essa semana que me preparei para assistir ao primeiro DVD desse pequeno grande homem cujo o título tem caráter biográfico: “Entre Cabelos, Olhos e Furacões” e constatei que suas ambições permanecem ali: o grande interprete das canções alheias, o compositor ainda imaturo mas já capaz de grandes sacadas como “Adoração”, o garoto generoso com os colegas de geração, levando a composição de Pélico (“Sem Medida”) e a voz de Blubell (Johnny, Jack & Jameson)  para as multidões que já acumula nos teatros que habita. E claro, como na vida tudo tem seu preço e seu valor, Filipe comete dois afagos perigosos em sua gravadora Universal ao registrar a versão pouco original de “And I Love Her” escrita por Roberto Carlos lá nos primórdios e uma balada da fase irremediável de Simone chamada “Quem é Você’. Mas não se assuste. Logo Catto recupera o fôlego ao resgatar um clássico de Nei Lisboa (“Rima Rica Frase Feita”) ou iluminar um achado poético de Alice Ruiz e Alzira E (“Mergulho). Um frequente "morde e assopra" que denuncia sua vontade extrema de não pertencer a nenhuma gangue musical. O cenário repleto de luzes é moldura perfeita para os movimento e gestos desse cantor que se aproxima do risco da palavra “over” ao mesmo tempo que demonstra para o grande publico ser a voz mais importante de sua geração em momentos como "Luz Negra" e "Ave de Prata". Dessas nítidas oposições vive a saga de Filipe Catto. Um coração sangrando ate enlouquecer. Para os grandes comércios Filipe Catto está pronto, para os mais atentos, restam dúvidas. De frente para esse percurso feito de dois caminhos, ele segue em frente e eu escrevo esse texto cheio de paixão e fé. Até a próxima, Filipe. 




Her Name is Rio

Era uma vez uma cidade maravilhosa onde havia uma ponta de praia chamada Arpoador que um dia abrigou um circo voador. Foi ali que nasceu uma amizade para sempre entre Agenor de Miranda e Isabel Gilberto. Trinta anos depois, o eterno retorno. O primeiro DVD de Bebel seria gravado neste mesmo lugar. A menina dos olhos de Cazuza, estava de volta ao ponto de partida desse encontro musical que gerou clássicos como “Eu Preciso Dizer Que Te Amo” e “Mais Feliz”. E muito mais que isso: a diva que encantou o mundo mostraria de onde vem a real inspiração de suas canções. Sendo assim, “Bebel Gilberto In Rio” já nasce com cara de obra prima.

 

Com direção de Gringo Cardia, produção musical de Kassin e Liminha (pela primeira vez juntos) e participações especiais de Chico Buarque e do rapper Flavio Renegado, Bebel Gilberto mostra-se tão à vontade que parece estar recebendo amigos para um drink no deck de sua casa. Filmado ao entardecer e sem ferir o movimento natural da paisagem cheia de banhistas que assistem a tudo sem grande espanto, o DVD é a mais completa tradução do hábito carioca de celebrar o pôr do sol na praia de Ipanema com música e muitas palmas. 

Eu adoro Bebel Gilberto. Sua chegada ao mercado internacional com o álbum “Tanto Tempo” em 2000,foi motivo de muita emoção aqui em casa. E lá fora só dava ela: outdoors em Paris, rainha em Nova York, motivo de desmaios no Japão. Desde Carmen Miranda e o estouro da Bossa Nova que não se via um fenômeno musical brasileiro assim. Um disco antológico que clamava por imagens paradisíacas que finalmente se tornam reais agora. A bordo de um vestido vermelho criado pela estilista Diane Von Furstenberg, Bebel desliza rumo ao mar por uma grande plataforma branca onde elementos cenográficos interagem com a cantora ao longo do roteiro, como um imenso Pão de Açúcar que serve de pano de fundo para a apresentação de “Rio” canção lançada pelo grupo inglês Duran Duran nos anos 80. Conforme a noite se aproxima, Bebel enfileira sucessos como “So Nice (Samba de Verão), “Aganju” e “Sem Contenção”, levando o público ao delírio. O DVD apresenta como bônus dois vídeos:  “Samba e Amor” ao lado de seu tio Chico Buarque (que talvez seja a única nota dissonante do projeto por soar frio e protocolar) e a versão de “Sun is Shining”, clássico de Bob Marley onde Bebel aparece num verdadeiro transe, celebrando o nascer do sol na praia de Copacabana.

Durante a exibição,  pensei o tempo todo nessa terra encantada chamada Rio de Janeiro. Esse paraíso tropical cercado de inseguranças por todos os lados e que o mundo insiste em adorar. Esta verdadeira nação, à sua maneira, com tradição e munição pesada como diria o velho samba de Chico. Sendo assim, para os mais conscientes, a exuberância de “Bebel In Rio” poderá soar utópica e quem sabe até perigosa por reforçar a imagem dessa cidade como império das belezas naturais que insiste em encobrir tanta precariedade e risco com sedução visual. Para turistas apaixonados e inocentes do Leblon, nada disso importa. Bebel Gilberto é a sereia de voz doce que canta os versos de Vinicius que tão sabiamente abrem o DVD:

 

“ É melhor ser alegre que ser triste

  Alegria é a melhor coisa que existe

  É assim como a luz no coração”




Seu Olhar de Estilingue Acerta Homens e Mulheres

E chega ao mercado o novo disco de Ana Carolina. Ao escrever essa frase já consigo ouvir os gritos de seus súditos. Sim , porque para eles esse nome é sagrado e, ao pronunciá-lo, logo aparecem (nunca menos  de mil) fiéis querendo te levar para a Igreja Universal do Reino de Ana Carolina.

Há dias só se fala nisso nas ferramentas sociais: o álbum “#AC” está para chegar e foi nessa quarta-feira , que os mais desesperados puderam ouvir (ainda sem poder comprar) as faixas do disco. Eu sou amigo de casa e confesso que já tinha desfrutado do privilégio de espiar algumas canções ainda em estado bruto e percebi que mudanças estavam por vir. Mas...muita calma nessa hora. O estilo Ana Carolina está preservado. Apenas o oxigênio de programações eletrônicas criadas por Alê Siqueira chegaram para confirmar o que os mais atentos já haviam percebido: as canções intensas e os gestos dramáticos de Ana cada vez mais perdem espaço em seus shows diante do transe fanático e suicida de seus adoradores. São chifres que piscam, anéis repletos de luzes e muita gritaria. E sempre que tenta investir numa atitude mais séria, a cantora é arrastada pela euforia de um povo em chamas. O jeito então foi partir pra pista. E para mim essa é a grande surpresa de “#AC”: as baladas estão enfileiradas ao final do disco e com cara de bônus, deixando bem claro que agora o beat da beata é que vai reinar. Portanto abra suas asas e solte suas feras, o novo disco de Ana Carolina é pra dançar.

Enquanto estou ouvindo penso também que, ao contrário de outras cantoras de sua geração que diluíram suas carreiras em tributos inúteis na busca de dinheiro imediato, Ana Carolina insiste em fazer somente o que é seu, muitas vezes pagando o preço da superexposição ou ficando na eterna mira maldosa de alguns críticos especializados e ouvintes preconceituosos. Quando recorre aos medalhões da MPB é para acontecerem novas parcerias, como é o caso, nesse disco, da faixa “Resposta da Rita” em que o velho samba de Chico Buarque (com o próprio nos vocais) dialoga com uma nova letra criada por ela em dupla com Edu Krieger. Ana Carolina dispensa regravações surradas ou homenagens mentirosas. Sua obra é honesta, pessoal e intransferível. Gostar ou não já é outro assunto.

Com certeza a capa de “#AC” é uma das melhores de Ana Carolina até hoje. Nos últimos anos sua pose extremada de diva já apresentava sinais de cansaço. A foto vibrante e inesperada de Leonardo Aversa mergulha (literalmente) Ana em outras águas, dispensando o indefectível terno preto e as caras e bocas de uma moça sem recato.

E chego ao final do disco. “Leveza de Valsa” é a palavra final de exatos 35 minutos e 34 segundos de letras maliciosas, melodias descaradas e uma garganta privilegiada. Ana Carolina ainda tem muito combustível pra queimar, discos para vender e fãs para conquistar. Ela segue sabendo de si e está pronta pra sofrer de novo. 




Uma Vida Inteira Pra Plantar e Pra Colher Luz

   

No ano passado eu recebi um telefonema de uma grande editora me pedindo para fazer a biografia de Marina Lima. Diante de tanta responsabilidade repassei o email para a própria cantora que disse... sim ! Dali em diante muitas emoções em diversas tardes que passamos juntos onde Marina discursou sobre coisas dessa vida e dessa arte. Tudo isso se transformou no livro “Maneira de Ser”, um caderno de afetos que teve sua tiragem esgotada em um mês e que volta agora numa segunda edição. Para comemorar e confirmar todo esse sucesso foi criado este show, concebido por Márcio Debellian, um verdadeiro agitador cultural e parceiro de Marina na concepção final do livro. Apesar do roteiro de caráter retrospectivo (com exceção do rock eletrônico “Partiu” candidata a hit e com um arranjo criado em parceira com o cantor e produtor paulista Adriano Cintra), o show está bem longe de nostalgias e lugares comuns. Transformando o Tom Jazz numa arena eletrônica onde luzes vermelhas piscam ao ritmo das canções, Marina, junto com Márcio, realiza um dos melhores shows de sua carreira. E o público agradece comparecendo em massa, fazendo a temporada ser estendida por mais duas semanas. Aliás, a plateia de Marina já é um acontecimento: jornalistas, povo de moda, descolados em geral que confirmam ser ela um eterno catalisador de novas tendências.

Marina está cada vez mais linda ? Está, sim senhor. Vestida pra matar num pretinho básico ela arranca suspiros e gritos durante o show inteiro. Tendo como auxilio luxuoso um chapéu panamá preto na canção “O Chamado” e um blindado óculos escuros em “Prá Começar”, Marina gosta de encenar canções como sempre demonstrou em shows emblemáticos como “Sissi na Sua” e “Primórdios”. Neste “Maneira de Ser”, ela contracena com uma grande tela onde são projetadas imagens de sua história como o encontro com Tom Jobim e trechos do documentário “Marina – Todas ao Vivo”. Relembrada com muita emoção durante nossas conversas para o livro, a canção “Pseudo Blues” de Nico Rezende e Jorge Salomão gravada no álbum “Virgem” de 1987, aparece com destaque no repertório acendendo novamente versos potentes como “O certo é incerto, o incerto é uma estrada reta / De vez em quando acerto, depois tropeço no meio da linha”. No bis, Marina abre seu coração ao recitar a frase escrita por Caetano Veloso em 1971 e que tão bem a define hoje: “eu sigo apenas porque eu gosto de cantar”. Os momentos felizes de Marina Lima não estão no passado nem no futuro, estão no agora. Portanto, corra para o Tom Jazz.

 

P.S.: Na saída compre todas as camisetas !




Um CD Sobre Uma Pessoa Só

Clarice Falcão é uma das melhores comediantes de sua geração. Calma, eu posso explicar. Dona de um carisma e de uma verve humorística pessoal e intransferível, Clarice zomba dos acidentes de percurso de gente da sua idade de tal maneira que me lembra o verso de uma canção de Alvin L que diz: “eu queria ficar triste mas não consigo parar de rir”. Utilizando outra figura de linguagem é como se Mallu Magalhães marcasse um chá das cinco com Lenha Dunham numa confeitaria do Leblon.

Um dia um amigo me ligou e disse: “entra no YouTube que tem uma garota minimalista e doida falando de amor”. Fui lá ver e me apaixonei. Tudo ali parecia de improviso ao mesmo tempo que soava milimetricamente planejado. Enquanto olhava para aquela menina com cara de “quero colo”, no canto direito da tela apareciam mais uma dezena de outros vídeos seus, todos profissionalmente amadores. Virei fã e comecei a baixar tudo que encontrei pela frente.

Clarice cumpre um destino. Filha dos roteiristas João e Adriana Falcão, logo cedo se apaixonou pelo ofício de contar historias e sua música vive disso: amores inventados em filmes imaginários que viram canção.  O encarte deste seu primeiro álbum chamado “Monomania”, tem cara de “querido diário”. Parece que estamos fuçando em coisa secreta, que não fomos exatamente convidados àquela leitura, tamanho o tom confessional que Clarice imprime em suas letras. As melodias parecem meros pretextos para suas crônicas musicais, visto que são feitas de pouquíssimos acordes e um fio de voz sincero. Um autêntico som pré-pós-tudo-folk-bossa nova

Mesmo estando acompanhada de músicos de gente grande como Jacques Morelenbaum, Sacha Amback e Rodrigo Campello e com a direção artística da cantora Olivia Byington, Clarice não diz amém, mantendo sua liberdade autoral e preservando o ponto de partida “voz e violão” de suas canções.

Agora Clarice Falcão irá para os palcos do Brasil confirmar tudo o que eu disse aqui e pela reação da plateia na estreia do show no Solar Botafogo, que eu pude constatar no YouTube (de novo ele!), vem muito sucesso por aí. Todo mundo cantando junto e o carisma de Clarice (de novo ele!) dominando a tudo e todos.

Bem, vou ficando por aqui, porque acabei de comprar “Monomania” no Itunes e tenho muito o que fazer: música boa para ouvir e letra para aprender. Eu quero ser amigo de Clarice Falcão. 




A Escuridão No Coração

 

O amor é chama que sempre apaga.  O verso composto por Marcos Valle e seu irmão Paulo Sergio em 1967, é o retrato mais que perfeito desse sentimento que, sabemos, só é infinito enquanto dura, como diria o outro poeta Vinicius. Mesmo assim, eternamente conscientes dessa verdade, quando o infortúnio do fim nos bate à porta, insistimos no não conformismo. Assim começa o filme “O Abismo Prateado” de Karim Aïnouz.

Alessandra Negrini interpreta uma mulher como tantas, indefesa diante de um casamento desfeito. Tal qual uma Alice desesperada na cidade das maravilhas , ela percorre as ruas do Rio de Janeiro em completo estado de agonia e solidão. Uma verdadeira cobaia de Deus atravessando sinais vermelhos, desejando a morte diante do mar e transformando qualquer transeunte em inimigo imaginário.

Apesar de não recebermos na entrada do cinema óculos para uma exibição em 3D, o filme de Karim Aïnouz literalmente salta aos olhos com uma projeção lisérgica feita de cores e imagens desfocadas. O caos sonoro das ruas de Copacabana torna-se a mais perfeita tradução dos sentimentos da personagem, numa história feita de poucos diálogos e muitas sensações.

Com roteiro inspirado na canção “Olhos nos Olhos” de Chico Buarque, o filme poderia padecer dos efeitos literais e digeríveis de um chamado “padrão globo de qualidade” entretanto, Karim Aïnouz percorre um caminho bem longe das obviedades, esbanjando tamanha poesia autoral que, confesso, só me lembrei do motivo inicial da trama ao ouvir, quase perto do fim, a interpretação desrespeitosa (no melhor sentido) da cantora Barbara Eugenia invadindo a tela  e transformando os versos manjados da canção de Chico em um verdadeiro soundtrack inédito.

Não quero cometer injustiças aqui omitindo nomes da ficha técnica que, com certeza, fizeram desse filme uma verdadeira obra prima, portanto citarei só mais um grande motivo para você correr para os cinemas: o ator Thiago Martins. Esse autêntico menino do Rio, confirma seu real interesse pela arte de representar tornando-se neste filme o contraponto ideal para a exuberância interpretativa de Alessandra Negrini. A chegada de seu personagem é o verdadeiro golpe de mestre armado por Karim Aïnouz dentro da trama, uma verdadeira “pegadinha” amorosa que induz o espectador a falsas conclusões antes do final verdadeiramente surpreendente.

Enfim, “O Abismo Prateado” é um pequeno grande filme sobre o amor, esse barco tonto num vasto oceano de riso e de pranto, de gozo e de dano, como diria aquela outra velha canção.




Feliz e Mau Como Um Pau Duro

 

​Ontem eu me dei bem. Estava na primeira fila do HSBC Brasil para ver o novo show de Caetano Veloso aqui em São Paulo. Ontem eu me dei mal. O publico, ao contrario do lançamento no Rio de Janeiro que lotou de gente jovem o Circo Voador, estava sonolento e completamente desentendido do que vem a ser o "novo" Caetano, aquele que desde 2006 tem atormentado seus "antigos" ouvintes com muito rock’n’roll e vitalidade. O desespero dos braços levantados no bis com "A Luz de Tieta” demonstrava isso: todos queriam aquele Caetano do DVD ao vivo com Ivete Sangalo ou a volta dos melhores momentos do show com Maria Gadú. E nada disso aconteceu. Caetano não quis dar esse abraçaço na turma da coxinha de galinha, cerveja e carro do ano.

Com leves modificações no roteiro carioca (como a retirada da extensa "Alexandre" de 1997 e da dolente canção “Gayana” de seu novo álbum), Caetano começa o show comentando a bossa nova para logo cair em belas melancolias como "Quando o Galo Cantou” e "Estou Triste". Ate ai tudo bem. Entretanto, quando corajosamente apresentou a canção "Um Comunista" de 8 minutos e 29 segundos, foi demais: eram filas no banheiro, cadeiras rangendo e Iphones acendendo. Enfim, o Caetano Veloso das multidões não compareceu na noite dessa quinta feira. Muito pelo contrario: ali estava o baiano destemido que enfrentou vaias e descasos nos tempos da ditadura ("Você Não Entende Nada"), o garoto de Santo Amaro cantando as coisas de sua gente (Reconvexo"), o eterno muito romântico ("Lindeza") e, acima de tudo, o cara sempre atento e forte (“Funk Melódico” e “Império da Lei”). E eu gostei, pulei, dancei e nunca mais esquecerei.

Como diria Caetano, é incrível a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer. Para um seguidor fiel de sua obra como eu, estava claro que após tantas cordas de Jacques Morelenbaum, milhões de cópias vendidas com a canção “Sozinho” e projetos ambiciosos como “Fina Estampa” e “A Foreign Sound”, algo de novo iria acontecer. E foi assim que o álbum “Cê” arejou, surpreendeu e reconquistou os incansáveis ouvintes do disco “Transa”, esse LP emblemático que é objeto de adoração entre “hypados” e “cults”. E assim se passaram sete anos. É claro que nesse tempo, Caetano não se calou diante do povão brasileiro cometando investidas comerciais como cantar ao lado de hitmakers imediatistas, lançar polêmicas em sua coluna semanal de domingo no jornal O Globo e sustentar o jargão “Feliciano Não Me Representa”, mantendo em fogo brando os seus fãs menos atentos e sempre dispostos a aplaudir esse ícone da música brasileira. Sendo assim, o nome de Caetano Veloso num outdoor sempre irá atrair equivocados e/ou reais interessados em sua obra. Mas ontem a alegria excelsa não compareceu. Quando Caetano começou a acenar para os mais afoitos e se preparar para sair de cena, o desespero era latente. Cadê o “Leãozinho” ? Perguntavam alguns. “Desde Que o Samba é Samba!” gritavam outros. Até minha companheira de mesa não se conteve: “Odara!”. E Caetano voltou para o bis e não deu mole com a inédita “Vinco”. Na saída, bem lá no fundo, por só terem grana para os ingressos mais baratos, avisto a galera do Studio SP, do Cine Joia e de outros inferninhos paulistas que estavam ali para celebrar o show que Caetano realmente quis mostrar e não conseguiu. A burguesia das primeiras mesas não deixou. Como disse Jorge Ben em 1969, que pena, que pena. Mas eu não vou chorar, eu vou é tocar meu “Abraçaço” bem alto e cantar. Afinal de contas...Caetano Veloso é foda.

 

P.S.: Essa foto é do Circo Voador.




Sinto Muito Amor Desde Que Você Chegou, Bárbara Eugenia

 

Imagine o romantismo cool de Lana Del Rey, a frieza tão sexy de Jane Birkin e beleza cult de Isabella Rossellini. Todas essas feminices desaguam em Bárbara Eugenia, essa menina que tomou conta do meu coração com seu primeiro álbum “Journal de BAD”, um título enigmático como sua presença no palco e sua música inspirada,principalmente, pela sonoridade dos anos 60 e 70.

Mesmo quando comete versões de autores tão cheios de personalidade como o francês  Adanowsky (“Me Siento Solo”) e a musa brega brasileira Diana (“Porque Brigamos”), Bárbara Eugenia atrai para si melodias e letras. Cercada de músicos potentes como Edgard Scandurra e Clayton Martin que produziram o disco e afagam sua voz com uma sonoridade quente e moderna, Bárbara confirma neste seu segundo álbum intitulado “É O Que Temos” que veio para fazer diferença dentro da nova geração pop brasileira.

Harmonias à la Tarantino (“O Peso dos Erros”), gringas deliciosas (“Jusqu’ A La Mort”, “I Wonder”, “You Wish, You Get It”, “Out To The Sun”) e baladas dolentes em português (“Coração”,“O Peso dos Erros”) já entram de cara como as preferidas do mês no meu Ipod.

Dois meninos também fazem grande diferença dentro da história desse álbum: Tatá Aeroplano e Pélico, românticos inveterados como Bárbara que comparecem compondo e cantando nas faixas “Não Tenho Medo da Chuva e Não Fico Só” e “Roupa Suja”.

Mesmo com um orçamento apertado bancado por uma multinacional, “É O Que Temos” tem cara de superprodução nos arranjos e no projeto gráfico que todos poderão ver por completo a partir de maio quando o disco físico chegará às lojas. Por enquanto está disponível (a partir de hoje) somente em sua forma virtual.

Depois de tudo que eu disse aqui, é hora de correr atrás do novo álbum de Bárbara Eugenia, essa garota papo firme que vai aquecer o inverno que daqui a pouco está chegando ao meu lar. E que tudo mais vá pro inferno, meu bem. 



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